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Data de Publicação: 19/07/2019
Alfaiates de outrora
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O artigo fala dos alfaiates que existiram em Catanduva a partir de 1940. Matéria do livro  "Recordações de Catanduva e outras estórias" editado em 1.996. autor Edgar Ferreira que está lúcido com 96 anos e reside em Catanduva

Pesquisador e digitador Nelson Bassanetti   

          Quedei-me ontem pensativo diante daquela loja de roupas feitas. extasiado pelas fileiras intermináveis de ternos prontos pendurados ao longo dos cabides, balançando-se ao vento!  E ao contemplar aqueles parelhos já acabados, pré-moldados, cortados por modernas máquinas elétricas e montados em série, a memória levou-me ao passado. E nesse voo rápido de pensamento, perguntei a mim mesmo o que é feito dos alfaiates de outrora, daqueles profissionais que aprendiam o ofício ainda crianças e provaram nossos ternos com a boca cheia de alfinetes, fita métrica no pescoço e riscos suaves de giz cor-de-rosa?

          Então, nas asas brancas da recordação mergulhei no tempo e, em volteando os lugares antigos apontados por essas suaves lembranças, revi Luiz Diório, à beira do Ribeirão São Domingos, onde é hoje a Loja do Alcides, e nada impediu-me de relembrar também os bons tempos em que convivi com essa família. Contemplei, até com um sorriso, no antigo número 84 da Rua São Paulo, a Alfaiataria Pires, fundada em 1932. pelos irmãos que lhe deram o nome, e que depois iria fechar-se para sempre na década de 1960. Ali, João, Benedito, Antônio e Miguel Pires, Paulo Mascaro vestiam com elegância boa parte da sociedade Catanduvense. Além de magníficos profissionais da moda e da técnica eram excelentes músicos, e Miguel Pires ainda hoje bem vivo pela Graça de Deus, vive em São Caetano do Sul, como integrante talentoso da orquestra de Francisco Petrônio.

          Lá na Rua Minas Gerais, no prédio vizinho à Esquina da Borracha, antecedendo a tantos outros excelentes mestres, estavam Augusto e Humberto Tricca cortando e provando ternos, costurados por Luiz Canoso, Roque de Maio, Pedro Lopes (Pedro da Vila). Ainda na Rua Minas cortando pano Francisco Felipelli, Benedito Elias, e o espigado Affonso Boschetti, hoje vivendo em Goiás.

          Na Rua Maranhão, logo abaixo do Empório Bandeirantes,  de Nélio Marques
Abbade, espaço ocupado pelas Casas Bahia, Alfredo e Nenê Ceneviva costuraram meus ternos do tempo de moço, paletós acinturados, ricos em entretelas, enchimentos e, eu os pagava em quatro prestações, sem juros, sem choro, contudo, foi Francisco Felipelli quem fez meu terno de casamento.

          Na Rua Brasil lá na altura do número 744, o amável Benedito Siqueira, dentro da sua pureza e timidez, estocava linho e casimira de primeira linha para servir seus fregueses, enquanto na mesma rua, na Praça da República, onde hoje está parte da Galeria De Franchi, em manequins esplendidamente vestidos, abria suas portas Eduardo Elias (O Dadão), e para costurar seus trabalhos de arte e bom gosto sentava-se a máquina o José Pereira, antigo palhaço dos cirquinhos da minha infância onde a entrada valia seis palitos de fósforos e um vela de espermacete comprava a permanente mensal!

          Muitos outros alfaiates, mestres e contramestres como José Solfa, Antônio Lomas, Douglas Pellegreffi, Antônio Sobrinho, Romeu Bróglia, Sétimo Brággio mostraram sua arte e talento. Uns cortavam, outros costuravam com maestria os ternos de um tempo em que a vaidade dos moços, dos homens, estava no chapéu, na gravata, no sapato, nas roupas de tecidos fidalgos.

          Mas, havia ainda a Alfaiataria Paratodos!

          Deixei por último porque merece nesta comunidade uma atenção especial. Por ali passaram quase todos os oficiais da agulha e de tesoura que Catanduva já conheceu. Alcides Brussi, Luiz Marino, Magatti, Gregorin, Aleixo, Waldyr e Luiz Baldo e tantos outros que o tempo apagou-me da memória. A Alfaiataria Paratodos, destinada a crescer apesar dos sustos do destino, nasceu de porta pequena, onde hoje está a Destak Center, logo acima da desaparecida Farmácia São Luiz.

          Em 1942 mal engatinhava, um funesto incêndio devorava tudo parecendo desfazer sonhos e ilusões, contudo não era chegada a hora. Mudou-se então, em caráter provisório, para o prédio da Casa Anderaus, loja de tecidos, que acabara de fechar as portas. Dali para o prédio da Rua Brasil, logo abaixo do Café da Esquina, foi questão de tempo. Todavia, ainda trazia e mostrava sequelas do sinistro de 1942 eis  que apenas  um lençol branco, ao invés de parede de alvenaria separava o balcão do contramestre da sala dos oficiais, como lembra bem o amigo Alcides Brussi.

          Nos anos de 1960, já nas salas de aluguel do 3º pavimento do antigo edifício do Banco do Estado, a alfaiataria já recuperada dos desmandos da sorte, floresceu, e não só costurava a roupa da elite Catanduvense onde a discussão pertinente ao esporte, à política, aos negócios, dava ao ambiente um toque de cátedra. E quem viveu naquele tempo teria visto là: Antônio Stocco, Paulo Marchi, Augusto Pereira, Moacyr Lichti, Sílvio Salles, Antônio de Rosis a contarem e escutarem também as estórias de Paschoal Díspore e Manoel de Freitas Filho, então donos daquele monumento.

          A Paratodos, hoje na Praça da República, 55, nas mãos de Aleixo Bachi e Luiz Baldo foi, sem dúvida, uma página importante na moda e na discussão dos problemas desta terra num passado que já vai bem longe.  

 

 

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